Não é difícil, mas quem disse que era fácil. João tinha de trocar os sapatos. Estavam tão gastos que o pé parecia tocar o chão. Sentia até mesmo as pedrinhas mais miudinhas que os olhos não viam sobre a calçada. Pois lá foi ele. Passos largos do trabalho para casa, um recanto de madeira, cor verde e de janelas marrons. Era aconchegante. Bem simples. João morava sozinho e tinha muitos objetivos. Naquele dia, só pensava em não se atrasar para a faculdade.
O roteiro era o seguinte: ele deixava o serviço às 17h45min, caminhava cerca de um quilômetro e meio, trocava os sapatos, deixava o crachá da empresa em cima da mesa, pegava a mochila e ia para a parada do ônibus, que encostava à beira da calçada exatamente às 18h10min. João, às vezes, não conseguia. Era vencido pelo cansaço. Ou tinha deveres a cumprir para o editor do diário em que trabalhava. O pior é que, quando não ia na aula, perdia o conteúdo. João era de poucos sorrisos.
Havia nove anos e meio que cumpria esse ritual. Naquela terça-feira nublada e abafada, João venceu. Entrou no ônibus no horário previsto. Quarenta e cinco minutos depois, estava dentro da sala de aula. Não deixou de se sentir aliviado. Havia prova naquele dia. Aluno nota oito, dedicado no trabalho e atento nos estudos, o estudante que sonhava apenas com a vitória da vida passou na prova. Fez dois textos. Um elogiado pelo professor. O outro nem tanto.
Muitos fazem o mesmo que João Siqueira da Cunha e Silva, de 28 anos. São vários os Joões, várias as Marias. Inúmeras as situações vividas no dia a dia. Para alguns, não há sapatos que os façam desistir dos sonhos.